sábado, 24 de agosto de 2013

O cheiro do meu Kindle

"- Credo, nunca pensei que te rendesses a isso!"
"- Txiiii, é tão estranho ler assim..."
"- E perder a experiência de folhear, sentir e cheirar um livro?!"

Ora é precisamente esta coisa do cheiro insubstituível dos livros que me recuso a aceitar como argumento contra a minha apologia dos chamados e-books. E eu, que estudei "línguas e literaturas modernas", até sou amiga de livros, que sou. Mas venham-me cá falar do cheiro a livro e eu afino. E o pó, não interessa?! Quem diz isso com certeza não tem alergia aos ácaros, como eu! Se tivessem de enfiar desde há anos uma sprayzada mal-saborosa em jejum todas as manhãs pela goela abaixo por causa daquela bicheza vinham-me cá falar de snifanço de livro, vinham. Hã-hã.

Para mim o Kindle é a maior invenção depois da roda, da placa de alisamento, do sushi, dos sticks anti-bolhas para os pés, dos sutiãs push-up e da Bimby, não necessariamente por esta ordem. Primeiro, consigo trazer para a minha viagem diária de barco autênticos calhamaços sem comprometer a minha integridade física (os 5 livros Game of Thrones, que juntos pesam o equivalente a um pequeno cachalote!). O facto de ninguém ver a capa do que estamos a ler também é uma vantagem. Sim, li as Cinquenta Sombras de Grey (em inglês, que me pareceu soar menos badalhoco) e já me chicoteei por isso (fica agora a dúvida sobre as segundas intenções desta afirmação). A procura de uma passagem em específico também se tornou numa brincadeira (quem já não passou horas a folhear páginas de trás para a frente à procura de uma personagem ou de uma frase em particular?). Isto deu-me imenso jeito, por exemplo, agora que estou a acabar os 13-livros-treze da série Gabriel Allon do norte-americano Daniel Silva. Pulei alegremente para trás e para a frente entre livros quando me falhava um pormenor ou outro. No entanto, o melhor de tudo, para mim que leio sobretudo em inglês, é o dicionário que já vem incorporado no bicho. Ele é seleccionar uma palavra que desconhecemos e o amigo dicionário explica, contextualiza, dá exemplos, etc. etc. Adoro, adoro!

Posto isto, hipiporra* para o meu Kindlezinho, que não cheira a livro, mas me tem feito muito feliz.

(Um dia partiu-se-me uma amostra de perfume dentro da mala e o Kindle ficou cheiroso. Conta?)


* Expressão típica utilizada em média 148 vezes por comemoração familiar, regra geral com os convivas já bem regados e eufóricos, em contexto de brinde. Soa a algo como HIPI-POOOOOOOOOORRAAAAAA (imaginar um urro com muitos decibéis, assim num cruzamento de hiena em êxtase com ambulância em marcha de urgência)

3 comentários:

  1. Olá bonequinha, antes de mais parabéns pela iniciativa, sempre é uma forma de te ter perto de nós quando a distância e o corre-corre do quotidiano cria-nos, a ilusão, de que não temos tempo para nada, nem para um simples telefonema!
    Sou estreante nesta coisa de comentar blogs, sou mais do tipo “voyerista”, no bom sentido da palavra (atenção, sem moralidades associadas), mas a temática que levantaste é-me particularmente tocante. Não querendo ter um comentário maior do que propriamente o provocatório texto que publicaste (já estou a dar a entender a minha divergente opinião), no entanto gostaria de te apresentar a minha visão da coisa:
    - onde está o relacionamento físico e emocional que se tem com um belo e volumoso livro em que nos deliciamos a folhear, a sentir o seu peso no nosso colo, a estética da capa e contracapa (ou a falta dela em alguns casos)?
    - como encontro o movimento vitorioso de passar mais uma página e sentirmos a emoção crescente de, como diz a minha filhota, “já tá!”, mais uma página vencida!
    - será possível num kindle a tentativa de adivinhamento da idade do livro, pelo cheiro e o tom amarelo das suas páginas? Ok, ok, tens a desculpa dos ácaros, sim são bichos asquerosos, principalmente quando os vemos ampliados! Tens uma solução, compra livros novos, acabadinhos de sair e depois de lidos distribuis pelos teus amigos que não se importam de compartilhar a sua vida com tais asquerosos bichinhos, como dizes!
    - e quantos kindles tens que comprar para ter uma biblioteca que impressiona os amigos que vão a nossa casa? Como podes ter daquelas estantes cheias de lombadas, de diversos tamanhos e cores e em que adoramos nos perder e ganhar torcicolos a tentar acertar no sentido das mesmas lombadas? É certo que 1/3 dos livros não são lidos, 1/5 são livros técnicos da faculdade que só servem para dar mais volume e imponência às estantes, e aproximadamente 1/6 são livros de culinária que nunca iremos pegar.
    Enfim, são vários os motivos que me levam a ser “old fashion”…não deixa de ser a minha humilde opinião que queria compartilhar com a minha amiga bonequinha. Bem, já me alonguei e tenho um livro técnico para acabar de ler no meu novo Nexus 7 acabadinho de chegar. ;)
    PS: tens que adivinhar quem nós somos... eheheh

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    1. Oh anónimo pá, tenho algumas desconfianças sobre a tua identidade, mas não me vou pôr aqui a adivinhar, né? Sabes, até concordo com tudo o que dizes, mas de facto rendi-me ao Kindle. O que não quer dizer que não continue a ler livros "à antiga". Aliás, para os miúdos e-books nem pensar! Agora, já estava na fase em que precisava de comprar mais prateleiras para receber tanto livro que tinha. Esse foi outro problema que foi resolvido ;) um grande beijinho!

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    2. JÁ SEI QUEM ÉS!!! JÁ SEI QUEM ÉS!!!!

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