quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Margem sul yo!

Devo avisar desde já que não vou na cena da coitabilização da margem sul, é estigma que a mim não me afecta minimamente.

Esclarecido o contexto, passo a descrever uma manhã típica de uma mãe na minha margem sul (=a mais perto da Ponte Vasco da Gama). Ou então a manhã típica de Boneca Maria de Deus. E aviso já que não envolve camelos, ou dromedários ou o camandro, mas outro tipo de animais, também eles predispostos para a caturreira.

Ora eu vivo praticamente no campo. A freguesia de S. Francisco em Alcochete, mais propriamente o Caminho Municipal (quem tem a morada mái fofa, quem é?), é um caminho, como já se percebeu, que de um lado tem o Clube de Futebol e do outro o rancho folclórico/clube motard, ou seja, uma animação. Então na época das festas da freguesia ui, ui.

Adiante, eu para conseguir sair da garagem de manhã ando a fazer corridas com um velhote rezingão (eu digo "bom dia" ele responde "grunf!") que tem uma Pick-Up verde e demora exactamente 13 minutos a tirá-la da garagem dele, o que é coisa que atrapalha uma mãe apressada com dois miúdos para largar no colégio. Aliás, o Máivelho já está à coca e grita "Bora lá mãe, corre, vem aí o velho caracol!!!" para ver se ultrapassamos o homem a pé e tiramos o carro primeiro do que ele. Só que o raça do homem às vezes sai mais cedo e apanhamo-lo a caminho da horta, o seu local de trabalho, que fica no trajecto do colégio. Ele, tractores, rebanhos e uma ou outra carroça. Sim, daquelas puxadas a cavalos. Ultrapassar esta procissão toda ainda é coisa para demorar um tempinho. Entretanto passa-se por três ou quatro pocilgas, e quem ainda não estava acordado leva semelhante chapada olfactiva que se põe em sentido.

Em S. Francisco de Alcochete não se apita aos animais que se atravessam no nosso caminho. Pára-se e tem-se uma conversa paciente com eles, encorajando-os a sair da frente para passarmos. Sejam esquilos, ouriços, coelhos, burros ou porcos. Tudo se pode atravessar à nossa frente. Até a ocasional galinha. Conseguindo chegar à escola e deixar os miúdos (carregados de repelente, que no campo há muita bicheza da que pica), convém ir pela estrada devagar para podermos atentar no preço da cebola e da batata nova que a "Tidevirge" vende à beira da estrada (nunca consegui perceber o nome da mulher: se será "tia da Virgem", "tia da fixe" ou "Tina Vige", enfim, outro mistério da margem sul). No outro dia, fui buscar couves e ela deu um alho francês ao Máinovo. Qual chupa-chupa qual quê! Convinha era tê-lo avisado que aquilo à dentada não era grande coisa de se degustar. No final, acabou por servir para ele arrear umas traulitadas num cão.

No caminho para o barco (para a coisa ser mais típica, aqui podemos cantar a famosa música "Ai que saudades do mê Montijo, desse tê cuzinho mái rijoooo!"), invariavelmente apanha-se carroças de ciganos e carros da escola de condução, que andam mais ou menos à mesma velocidade. Deve ser uma cena da margem sul: Bora lá atravancar o trânsito no único acesso aos barcos mesmo na hora de ponta. Sim, porque entretanto já cheguei ao Montijo, onde as várias horas de ponta correspondem aos minutos que antecedem a partida dos barcos para Lisboa, altura em que todo o montijense e alcochetano (seres pachorrentos e calmos por natureza) se transfigura, é acometido por uma valente fúria para apanhar "o barque" e passa por cima de toda a folha. E de todo o carro de escola de condução, carroça de ciganos, cão, porco ou ouriço que lhe apareça pela frente.

Só pode ser pressa para atravessar para a margem de lá. É que só pode.

3 comentários:

  1. É tia Edeviges

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A sério?! Que máximo! Agora já vou chamar devidamente a senhora! Obrigada, conterrâneo(a)! :)

      Eliminar
  2. De nada!!!Feliz por ajudar....

    ResponderEliminar