terça-feira, 8 de outubro de 2013

O meu diário da adolescência

Descobri aqui há tempos o meu diário de adolescente. Primeiro tive de o arrombar, porque tinha uma pequena fechadura e chave nem vê-la. Lá dentro bem dobradinha estava a minha faixa de finalista de 11º ano (92/93!!!), com autógrafos e frases de todos os colegas. Destaca-se a menção repetida a surfistas, aparentemente eram a minha perdição, bem como "meninos de Azeitão". Muito interessante foi constatar que, apesar das tricas existentes, todos se esforçaram por escrever palavras simpáticas. Ele há para todos os gostos: "para a cagalhona mais bacana e brincalhona", "sua cara de pipi" (explicação: pipi rima com o meu diminutivo), "para a fofinha mais fofinha do mundo" (awwwww), "com um grande kiss para a minha best friend" (via-se que era uma turma de letras), "para a minha doce e fofona", "este teu colega deseja-te um beijinho" (não sei bem como se desejam beijinhos, mas parece-me bem). Depois há um "adorei curtir contigo" (ups, too much information) e um "beijocas para a gorda" (sendo que eu devia pesar uns 40 kg na altura). Também surge a bela frase "qualquer coisa" seguida de uma assinatura, que facilmente se percebe como surgiu. E uma erudita "O risco despropositado na palavra Azeitão leva-me a transmitir-te a imploração de perdão". Uma professora modernaça assinou "setora", por debaixo do belo texto "Ditadura é a única forma possível para governar um mundo em caos. Democracia é eu mandar em ti." (Ora toma, vai buscar!). A excepção em toda esta fofurice foi uma alminha que decidiu que seria fofinho escrever para a posteridade "que aquele narizinho empinado no baile não se mantenha assim toda a vida, mas mesmo assim estavas muito bonita" (presumo que tenha sido porque descobriu que eu tinha dito que o namorado dela era demasiado bonzão para ela que tinha cara de fuinha).

Em relação às entradas no diário propriamente ditas, a maior parte da informação é sobre rapazes, obviamente, sobre problemas que agora me dão vontade de rir mas que na altura me pareceram o fim do mundo, tragédias das quais eu nunca iria recuperar. A profusão das palavras "bué" e "buéda" é absolutamente assustadora (embora para meu grande espanto, não haja erros ortográficos graves), assim como a quase bipolaridade, em que um dia "tou buéda feliz" e no outro, por causa de algo tão grave como "ele passou por mim e nem ficou um coche a falar comigo", "tou bué triste" (um coche?!). Descobri também que estava interessada em 4-rapazes-quatro ao mesmo tempo, e que nenhum me ligava puto. Por outro lado, havia um que me mandava recadinhos no intervalo, mas que não me interessava porque "era badocha e buéda foleiro". Amorosa que eu era.

Enfim, deu para recordar que o sarau do Vitória de Setúbal era dos mais importantes acontecimentos sociais e que os "gajos dos trampolins são buéda bons". Bons velhos tempos aqueles, em que a maior preocupação era se devia usar o rímel verde (sem comentários) ou as Dr. Martens emprestadas da amiga. Sim, porque micose era uma palavra desconhecida.

4 comentários:

  1. agora percebe o quão perturbada eras, és e concerteza serás...

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    1. A maior prova da minha perturbação é que continuo a publicar os teus comentários :=)

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  2. hehehehe, tenho de procurar o meu diário, porque deve ser muito parecido.... (fizeste-me recuar uns bons anos....saudades desses tempos...)
    :)

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