terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Bullying invertido

Devo ser a única pessoa à face da terra que já foi vítima de bullying invertido.

E o que é bullying invertido, Boneca Maria de Deus? Pois que não faço ideia, acabei de inventar o conceito. Mas soa bem e penso que se aplica na perfeição ao tipo de bullying de que fui alvo.

Corria o ano de … bom, não interessa, eu tinha 18 anos. Hoje tenho 37, é fazer as contas que eu sou de Letras e não sei. Ora na Baixa de Setúbal (spot onde a malta "parava" depois das aulas) estavam umas criaturas que já não me lembro se faziam publicidade ou queriam que respondêssemos a inquéritos. E um deles, particularmente chato e feioso (a sério, mesmo feioso, óculos de fundo de garrafa, gordo, dentes nojentos e borbulhas), decidiu implicar comigo. Porque eu não queria parar e ouvir o que quer que ele tinha para vender. E eu passava naquele sítio todos os dias e invariavelmente ignorava o rapaz, que começou a ficar chateado. E então decidiu mudar de estratégia. Presumo que tenha pensado, olha-me esta betinha, tem a mania que é melhor do que os outros, espera aí que já te lixo. E vá de me insultar cada vez que eu passava. Mas não era um insulto qualquer: o rapaz - relembro, absolutamente horroroso - decidiu gritar para os colegas ao lado (assim como que a pedir validação) de cada vez que eu passava "OLHA A CARA DE CÃO!!". Oi? Cara de quê?! Precisamente, cara de cão era, segundo o totó dos dentes nojentos, borbulhas e óculos fundo de garrafa, o que eu possuía. E tinha de o ouvir todos os dias, porque ele estava perto do sítio onde eu me encontrava com os meus amigos.

Eu nem queria acreditar no que me estava a acontecer. Não que eu me tivesse em muito boa conta, todas as adolescentes são complexadas por natureza e eu não era exceção, mas aquilo deixava-me sem reação, um dos rapazes mais feios que eu já tinha visto a chamar-me cara de cão. E aquilo começou a moer-me e a incomodar-me de tal forma que resolvi contar à minha mãe (uuuh sua valentona!). Ui, a leoa passou-se, alguém estava a tratar mal a sua cria. No dia seguinte, obviamente quis ir também e testemunhar a cena. E qual foi a primeira reação de mãezinha? A incredulidade perante a figura triste do rapaz que me estava a insultar. Como se atrevia aquele anormal a insultar a sua linda filhota?! Hein?! De tal forma ficou embasbacada que ela, arisca que é na defesa das crias, ficou sem palavras. "Mas coitadinho, ele é tão feiinho…". Penso mesmo que terá ficado com pena dele "Só pode ser porque é uma pessoa muito complexada, filha".

Portanto, o problema manteve-se e eu resolvi contar ao meu namorado. Sim, Boneca Maria de Deus tinha - ALEGADAMENTE - cara de cão, mas um namorado que por acaso era um giraço e tinha quase 1,90 m. Ah, e gostava de andar à porrada, pormenor que me tinha levado a esconder a situação, com medo de ele deixar a cara do rapaz com pior aspeto do que já tinha. Mas decidi contar-lhe, embora pedindo encarecidamente para ele não armar barraca, que o rapaz até aparecia menos, se calhar já nem trabalhava por ali.

Acontece que numa saída à noite, num bar, lá estava o fundos-de-garrafa, que quando eu passei resolveu gritar "OLHA A CARA DE CÃO!!!" mesmo nas barbas de namorado bonecal que, no alto dos seus muitos centímetros surge por detrás do rapaz, o agarra pelos colarinhos até ficar com os pézinhos a baloiçar e lhe diz uma frase que aqui não posso reproduzir, mas que posso adiantar terá incluído enfiar uns certos óculos de um dado atrasado mental num determinado orifício. E depois a melhor troca de palavras, do género: "Mas tu já olhaste bem para ela??! E para ti??!! Mas tu vês bem??!! Mas tu és normal??!" (bastante parcialzinho esse namorado, benzóDeus)  

Na vez seguinte que o vi na Baixa o rapaz veio pedir-me desculpa e dizer-me que até me achava gira. Menos, rapaz, menos. Também não era preciso exagerar. 

15 comentários:

  1. Pois a mim deixaram de chamar "esqueleto andante" porque depois ouviam um "quéque foi pah???" com cara de poucos amigos... e sim, também tinha um namorado assim, com muitos e muitos centimetros, que adorava pegar pela minha cintura e debaixo do braço dele, enquanto eu gritava "põe-me no chããããããão", e pronto, também tanto pegava na minha cintura, como nos colarinhos de quem dizia mal do seu "esqueleto andante", ehehehehehehe.
    (Que romântico, pah, agora já não há disto, ehehehehhehe)

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  2. E é nestes dias em que um lágrima teima em cair, que me fazes sorrir... obrigado.

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    1. Ooooh :( Fico contente mas também triste. Tenho uma ideia: durante meia hora podes chamar-me cara de cão aqui na caixa de comentários, pode ser? Se alegrava o dia ao outro, talvez te ajude!! :P

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    2. Não, não ía ajudar.
      Isso era dantes, quando era uma miúda idiota e fazia isso aos outros... agora (felizmente) já não sou assim!

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    3. Então pronto, continuo a escrever idiotices para te ires rindo!

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    4. obrigado...

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  3. Quem nåo tem uma história assim? Tantas e tantas pessoas ..certo? A mim chamava-me pau de virar tripas !!! Mas que raio !? Pau de virar tripas ? Nunca percebi esta expressão que ainda hoje se utiliza . Alguém me pode explicar ? Se calhar era um elogio e eu não percebi . É que hoje continuo a ser assim e passam o tempo a dizer "Estás sempre na mesma , parece que o tempo não passa por ti !" Hoje em dia parece um grande elogio .

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    1. Ui, eu colecionava-as: nariz de apanha bufas, esqueleto vaidoso, Olívia palito, etc etc...

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    2. Antigamente, quando se matava o porco e se faziam os chouriços em casa, lavavam-se as tripas em agua corrente, muitas vezes num riacho. Para as tripas ficarem bem lavadas, punha-se um pao preso na ponta, que entrava dentro da tripa e a virava ao contrário, daí "pau de virar tripas", mais tarde, ao perceberem que o pau rompia por vezes a tripa, fazia-se exactamente o mesmo, mas aproveitando a corrente do riacho. ;)

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  4. A mim chamavam cata pulgas. Aquilo na altura soava-me mal e punha-me a correr atrás desses rapazes para lhes dar uns estabefes . Agora que penso nisto reparo que eles se estavam a insultar a eles próprios.

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    1. Nunca tinha ouvido essa! E queria dizer exatamente o quê?

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    2. Na realidade acho que queriam chamar pulga pq eu andava sempre a saltitar. Mas burros estavam a insultar-se a eles próprios, uma vez que já sabiam que eu não me ficava. :-D

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  5. A mim chamavam-me morta viva, por ser muito branca e no inverno ficar com os lábios ainda mais brancos que a própria pele ou por vezes roxos.
    Mais tarde, no 9º ano, a alcunha evoluiu para "dead alive"... e ainda hoje adoro essa alcunha, eheheheheh.

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  6. estas histórias são uma delícia. hahahaha

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