quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Saída do barco em dia de chuva e vendaval - Step by step tutorial

Instruções para quem está a pensar atravessar o rio de barco nestes dias de chuva, vendaval e o catano:
1 - Cobrir-se dos pés à cabeça de sacos plásticos (aqueles pretos, do lixo, dão muito jeito): é melhor agrafarem-nos, porque a fita-cola descola com a chuva.
2 - Chegados ao cais de embarque, tomemos como exemplo o do Montijo: tentar não arrear com o guarda-chuva nos comparsas de viagem e não levar o chapéu enterrado até ao queixo de modo a que nos retire a visão periférica e nos espetemos contra uns andaimes das obras (que todómundo sabe que a melhor altura para pintar os cais é quando está de borrasca) - não que isto me tenha acontecido.
3 - Muito importante: o bocadinho desabrigado entre o fim do cais e o barco (sensivelmente uns 3 metros) pode e deve ser feito a correr. Abrir um guarda-chuva só para aquela distanciazinha não só molha mais do que propriamente protege, como ainda nos arriscamos a furar um ou dois olhos que não os nossos. E dificulta ainda mais a tarefa de entrar no barco.
4 - E agora um desafio: tentar entrar e sentarmo-nos num sítio seco, sem escorregar e sem soltar uns valentes -alhos e dasses. Aqui falo por mim, é difícil pra chuchu. Eu nunca consegui.
5 - Pentear-se. Sem arrear com o cotovelo no vizinho do lado que por ser careca (patife sortudo), pode saltar esta etapa.
6 - Chegada a Lisboa. Se ainda não vomitou, parabéns, mas o pior ainda está para vir: o atracamento de barco (é este o termo técnico). O marinheiro-mor-condutor atira o bicho contra o cais à maluca (ou então aquilo tem alguma ciência e eu ainda não percebi), cá vai alho, e agora pirem-se daqui para fora.
7 - E agora a parte complicada: conseguir conciliar, num barco que ondula 2 metros para cima e outros 2 para baixo, para a frente e para trás contra o cais, uma série de movimentos perigosíssimos encadeados. Assim numa espécie de Jogos Sem Fronteiras, versão pobrezinhos. Allez, allez équipe de la margén sud!! Ora, a malta joga-se à maluca em vôo quando o barco ondula para a frente e para baixo. Isto exige um cálculo rigorosíssimo, em conformidade com as seguintes equações: ondulação para cima + para trás = trombas no Tejo / ondulação para frente + para baixo #3 passos em frente x 7% = cravas-te nos costados da velha que decidiu abrir o guarda-chuva a meio da rampa de saída em vez de largar a correr. Por isso, é borrifarmo-nos na velha, passar-lhe por cima (que até dá jeito, porque escorrega menos do que a rampa) e desatarmos a fugir (guarda-chuva fechado, atenção!) antes que as condições sejam de novo propícias à primeira equação. É uma espécie de exercício de natação sincronizada em que o objetivo é sairmos do barco enquanto a ondulação e as velhas estão de feição.
8 - A rampa de subida escorrega com'ó catano. Aqui sugiro uma desaceleração, e uma gincana no meio dos totós que insistem em ir de guarda-chuva aberto a vazar vistas alheias.
9 - Se "chegasteis" com vida e com os dois olhos, os meus mais sinceros parabéns, prova superada. Logo à tarde encontramo-nos de novo, ao regresso. Agora ide-vos pentear, que pareceis uns macaquinhos.

7 comentários:

  1. Eu sou da margem Norte mas parti-me a rir com a descrição, imaginei a cena toooodinha, lindo!!! Para descansar a malta da margem Sul nós cá deste lado também temos uns rios para atravessar no Marquês quando saímos do autocarro e mais uns taxistas e motoristas de autocarro que gostam de nos brindar, do alto da sua boa disposição, com uns duches de água castanha.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Espero que o ilustre anónimo não esteja a atrever-se a comparar sair no Marquês com a saída no Terreiro do Paço, senão vamos ter chatices.

      Eliminar
  2. Gostei!!! Haja boa disposição para aguentar estes dias... :)

    ResponderEliminar
  3. Pois aqui, no centro do país, só temos as ribeiras a galgar as estradas de forma a que os nossos queridos popós entrem em aquaplaning e assim faz de conta que estamos naqueles parques aquáticos divertidissimos.
    (Cá não há assim transportes públicos, pelo que não existem episódios referentes a tal, eheheheheh).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Aquaplaning nas ribeiras também me parece divertido!

      Eliminar
  4. A dica de passar por cima da velha (pq escorrega menos do q a rampa) priceless!!!
    O q eu me revi nisto, nas minhas travessias Seixal-Terreiro do Paço e nos Cacilheiros!!! :D

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ele há coisas que só quem anda de barco consegue perceber em toda a sua plenitude!! ;)

      Eliminar