sábado, 8 de fevereiro de 2014

Ser tradutora

Pois é, é a minha profissão. E embora eu tente salvaguardar a minha vida profissional, que nada tem a ver com este blogue, não consegui ficar indiferente a um artigo publicado nessa revista de referência de coisa nenhuma que é a Happy, por uma tal de Carla, que me parece um poucochinho acéfala. Ora a Carlinha fofucha, no seu artigo "15 ideias para ganhar dinheiro na internet. Sem investimento e à distância de um click", entre outras pérolas como criar um blogue, sugere que se façam umas traduções (eu já devia ser milionária, tendo um blogue e ainda por cima, traduzindo). 

Faz-me lembrar aquela ideia peregrina "Enquanto não arranjo nada na minha área, vou dando umas aulinhas", porque isto de ser professor, como tradutor, qualquer pessoa o faz, não é verdade? 

E é isto, os tradutores, essa gente biscateira que até nem tirou um curso superior e uma carrada de especializações, não são mais do que indivíduos que agarram num dicionário e debitam um chorrilho de palavras. Sem investimento, filhota? Cheira-me que o meu investimento foi mais elevado do que o teu com o jornalismo, julgando por este artigo inenarrável. E essa malta ainda cobra 10 cêntimos por cada palavra, os bandidos, que as vão buscar de graça aos dicionários. Mais uma vez me questiono por que não estarei rica. 

Surpreende-me a facilidade com que se minimiza o trabalho dos outros, como despudoradamente se arreda para um canto uma profissão séria, remetendo-a para não mais do que um biscate, uma "coisinha" simples que se faz para ganhar um rendimento extra sem grande esforço. De facto, há muito programa de tradução automática, quem nunca viu traduções de ir às lágrimas? Hum… e gostaríamos de ser brindados com um trabalho desse gabarito? Talvez não, né, Carlinha fofucha? Passe o seu currículozinho a um desses tradutores-de-beira-de-estrada num destes dias que precise, sim? E não se esqueça de pagar os 10 cêntimos, OK, filhota? Já agora, deixo-lhe uma ideia para acrescentar a uma parte 2 desta preciosidade de artigo: a senhora que faz as limpezas cá em casa percebe paletes de mezinhas caseiras para as constipações. Talvez pudesse abrir um consultório, é todo um manancial de conhecimento desaproveitado. Eu própria, com filhos sempre doentes e ranhosos, tenho uma farmácia em casa. Também é uma ideia que me parece supimpa: podia vender medicamentos aqui no blogue. E traduzia as bulas para inglês. Ui que vai chover dinheiro. 

Juizinho nessa cabeça, sim?


9 comentários:

  1. É este o meu futuro? Ora bolas... Vou é emigrar no momento em que me meterem o diploma na mão.
    Existe muita gente que me diz o mesmo,"traduzir é tão fácil, é um biscate". A ignorância também, infelizmente.

    xx

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    1. Ana, hoje em dia nenhuma profissão tem facilidades, mas os tradutores são uns desgraçados, devo dizer. Felizmente não falo por mim, mas sinto-me na obrigação de não pintar um quadro cor-de-rosa para quem está a começar, ou pretende vir a fazê-lo. Força! Beijinhos

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  2. Até que enfim vejo alguém tocar na ferida. Bem, isto nem merece comentário. Andei eu a tirar mestrado em Tradução e Interpretação Especializadas p'ra quê? Infelizmente neste país, todos os que tenham meras noções de uma língua fazem traduções. É muito difícil entrar no mercado, mesmo como freelancer, porque infelizmente neste país também ninguém quer pagar qualidade. Só querem tudo barato (ou de borla, no caso dos "amigos"), nem que seja feito por tradutor automático. Enfim... Gosto muito do curso que tirei e da área que escolhi. Era mesmo o que eu queria. Mas se fosse hoje, definitivamente ia para qualquer outra coisa. Bem, desculpa o desabafo assim um tanto ou quanto incoerente, mas quando se trata de falar de tradução em Portugal deixo de conseguir pensar direito. E quando vejo artigos como esse... Só me apetece chamar de tudo a quem o escreveu.

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    1. Isabel, estou perfeitamente solidária, como é óbvio. E partilho da tristeza por uma profissão que não é devidamente acarinhada na maioria das vezes. É o que dá uma pessoa seguir a vocação… Beijinhos!

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  3. Os Tradutores têm que se unir e formar uma Ordem que os defenda, senão for assim, qualquer pessoa pode fazer traduções e eu sei do que falo.

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  4. Escusavas de insultar a autora do artigo. Como tu, ela só faz o que lhe encomendam.

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    1. Eu cá não percebi o comentário desta. Mas a boneca faz o quê por encomenda??

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  5. Deixa lá, eu sou arquitecta e dizem-me que "é só fazer um boneco", esquecem-se das leis, decretos-lei, portarias, regulamentos... enfim, um boneco com muito que saber...

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