Ah, quer isto dizer que hoje vais falar-nos sobre ti, sua Boneca gostosa? Não, pá, sois fofinhos por alvitrar tal hipótese, mas não é sobre mim o naco de prosa de hoje.
É sobre uma senhora que vem no mesmo barco que eu (lamento, mas o meu microcosmos é fluvial e nada a fazer). Ora digo senhora porque se trata de um ser daqueles que por trás parece que tem uma determinada idade e depois vai-se a ver e apanhamos um valente susto quando a dita se vira de frente e lhe vemos as fronhas. Passo a explicar. A senhora, de costas, manda umas trancas do mais jeitoso, usa roupa justa (até um pouco demais talvez) que lhe evidencia as curvas, salto alto, tudo assim em sexy. E aparenta estar na casa dos 25/30. Depois olhando com mais atenção percebe-se que o cabelo não é louro, mas branco. E o maior erro: ver-lhe a cara. Eu cá falo por mim: sou uma mulher que aprecia outras sem qualquer pudor. Não me entendais mal: sempre numa perspetiva antropológica, nada de badalhoquices, que sou imensamente hetero. Gosto de ver uma mulher bem vestida, gostosona, e esta parece particularmente rija, o que me desperta um ciúme saudável. Ora decidi ver a cara da jeitosona e ia tendo uma síncope cardíaca. A criatura deve ter praí uns 60 anos bem tirados. Raisparta a velha como é que ela me atira com aquele corpaço, hein? "De certeza que não tem filhos" é o primeiro pensamento. "P&ta da genética que é f#dida", o segundo.
Ora dediquei-me a observar-lhe os hábitos fluviais e não aparenta fazer nada de especial, a não ser respirar e coiso. Raça da velha, que inveja, parece toda rija ali nada abana, os braços mais fininhos do que os meus, ordinarona.
Calhou a senhora sentar-se à minha frente um destes dias. E, embora munida de um corpanzil que valhamedeus, a criatura é cega que nem uma toupeira (incha velhadas), pois verifiquei que as mensagens escritas que ia a trocar tinham letras gigantescas e ela ia a olhar para o telefone com este praticamente encostado ao nariz (opá não me lixem, aquilo era um telemóvel velho com um ecrã gigantesco e letras correspondentes a Arial 24, não havia como não ver!)
E que troca de mensagens era essa, Boneca? Ai, desculpa esta pergunta ofensiva, claro que tu não leste o que a senhora estava a escrever pois isso configura uma valente malcriadice.
Eeerrrr.
Pronto, tendo já passado este momento de vergonha e tendo-me ministrado sete vergastadas no lombo em jeito de penitência por ler as mensagens em carateres gigantescos que uma velha cegueta porém gostosa ia praticamente a enfiar-me pelos olhos adentro, vou relatar o que bisbilhotei li e as conclusões a que cheguei:
- JÁ TOU NO BARCO, TOU A XEGAR!
(Perceberam o tamanho, né? Pronto, agora vou pôr isto normal, uma vez que já provei a minha inocência)
- Ai qd eu t apanhar...
- Então, o k m vais fazer? (De notar com agrado porém estupefação que a malta idosa também sabe abreviaturas modernaças!)
- Vou-te comer!
Aqui já estou a suster a respiração e com um sorrisinho matreiro a pensar "Olham'a porca da velha, hein?"
- Ai vais? És o lobo mau?
Uuuuiiii que isto está a aquecer. E é então que a gaja resolve fazer uma chamada, porque estas coisas é melhor serem faladas, digo eu, e levanta-se para mais falar mais à vontade e para privar - a velhaca - os companheiros de barco da bela pornografia que estava a decorrer. Buuuuu má velha.
Ora, o que daqui se conclui?
- Que se tivermos um corpanzil de fazer parar o trânsito mas uma cara cheia de rugas e o cabelo branco, devemos andar na rua de marcha atrás. E talvez pintar o cabelo, digo eu, para manter o mistério por mais uns minutos. E pensar em investir numa máscara de cirurgião para pôr à frente da cara para não assustar as pessoas.
- Que as nossas conversas badalhocas no barco são para ser partilhadas, pois podemos falecer a qualquer momento e pode haver uma pessoa atrás de nós que tenha um blogue e que esteja na disposição de nos imortalizar e assim nos prestar uma bonita homenagem.
- Que rambóia pós-50 não deve ser assim tão mau.
- Que eu não gostaria de estar na pele dos homens que se metem com ela e depois constatam a cara. Mas gostaria de assistir ao momento. Apenas para o imortalizar no blogue.