sexta-feira, 4 de abril de 2014

O rebarbado corajoso

O rebarbado corajoso (nome científico: Nojentus badalhocus) é um espécime endémico das salas de espera dos barcos para o Montijo, onde é encontrado regra geral ao pé do bar. Funciona em matilha e sai para caçar apenas quando devidamente escudado pelos pares e quando o grupo é em número superior a 3. Esta criatura de porte atarracado, tez macilenta, em regra coberto por densa e gordurosa pelagem, que contrasta com o cabelo ralinho, e dentes asquerosos, tem por hábito tecer comentários imbecis às fêmeas com idades compreendidas entre os 10 e os 60 anos. No entanto, fá-lo apenas quando tem a certeza que terá validação dos pares, que grunhem de satisfação ante as investidas do amiguinho com o sexo oposto. E a psicologia contrária é o que mais diverte a matilha, ou melhor, a cáfila (pesquisadores começaram a sequenciar o genoma do dito bicho e descobriram vários genes compartilhados tanto com os canídeos como com os camelídeos): quanto mais enojada se sentir a fêmea objeto da investida, mais satisfeitos se sentem piquenos camelos. Esta espécie, hélas, é pouco ameaçada em termos de extinção: enquanto houver ajuntamento de pessoas em salas de espera de transportes públicos, sobreviverá.

Ora, o rebarbado corajoso, preferencialmente carnívoro mas cuja dieta se baseia em minis e bolos de arroz, possui a sua própria fêmea, vá-se lá saber por que golpe de ironia do destino. E é aqui que se dá uma interessante inversão no seu comportamento. Quando acompanhado da dita, o RC perde todas as suas características predatórias e amansa. Baixa a garupa. Não levanta cabelo. Não arrota postas de pescada. E assim de repente não tenho mais expressões sinónimas. Quando fora do seu habitat natural e acompanhado da patroa, o bicho assim a modos que eunuca, se é que existe o verbo. Aparentemente, os companheiros guardar-lhe-ão cuidadosamente os testículos numa caixa, ele só os podendo usar na sua presença. Ao pé de sua senhora não tuge nem muge, chegando inclusivamente a comportar-se de forma normal, circunspecta até, com o olhar em baixo em forma de submissão, e sem proferir um único dos seus urros característicos.

Anseio agora pelo dia em que uma certa fêmea que eu cá sei que já vivenciou (verbo que me irrita profundamente mas que utilizarei a bem da prosa) os impropérios do dito rebarbado, se passe da marmita e resolva confrontar o animal em frente à sua esposa e perguntar-lhe se não se importará de repetir as frases com que a costuma brindar quando cheio de coragem ao pé dos amiguinhos para que ambas em conjunto e ao mesmo tempo possam usufruir da sua poesia.

18 comentários:

  1. no dia que fizeres isto, chama-me que vou contigo!!!!

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    1. Esquisito como as pessoas partem logo do princípio que eu estou envolvida...

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  2. fantástico post! a descrição é perfeita! infelizmente estava a ler isto no trabalho, onde a alegria de viver e o facto de fazer uma pequena pausa - a não ser que seja para fumar pq esses podem fazer as pausas que quiserem que ninguém leva a mal- é muito mal vista e saiu-me uma gargalhada q levou logo com um sobrolho franzido!

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    1. É tossir!! Diz que disfarça. (Epá não quero ser responsabilizada por nenhum despedimento, hein?)

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  3. quem não conheça que te compre!!!
    eu conheço o bixo (eu sei que não se escreve assim) que se intitula boneca de deus

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  4. Ena, ena!!! Eu agora também anseio, isso é que era!!! Conheço tantos exemplares dessa idiotica especie...tantos... Era apanhar as caixinhas dos testiculos todas e fazer um peixe pacu muito feliz!!!
    ( http://www.tvi24.iol.pt/internacional/pacu-peixe-testiculos-dinamarca-suecia-tvi24/1479589-4073.html)
    :))))

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    1. Riso e vómitos ao mesmo tempo.

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  5. grande texto...mas olha que também se encontram espécies de outro género com cabelos encaracolados que mergulharam as pontas em água oxigenada só para dizerem que têm madeixas "tipo" californianas, vestidas sempre com uma peça tigresa, de preferência com mini saia justinha, e botas até ao joelho...que juntas são uma coisa e isoladas piam fininho...ou nem piam!!!
    http://dcabanas.blogspot.pt/

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    1. Essas também são frescas... (eu hoje tenho uma peça tigresa, mas vou tentar que não me sirva a carapuça, sim?)

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  6. eh pah... como submisso que é vai negar tudo, afinal ao pé da senhora sua esposa é um anjo, daqueles que até tocam harpa e tudo...

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    1. Com certeza. Estes espécimes são tudo menos corajosos.

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  7. Eu acho que lhe perguntava pela senhora sua esposa, se estava bem de saúde e porque é que hoje não tinha vindo com ele, visto até terem tema de conversa para o resto da viagem, mas que para a próxima teria uma palavra ou outra para trocar com ela.
    É que assim à frente da senhora, ela pode sempre ser daquelas que acham que o marido é um anjo e um espanto, e que tudo o que é mulher anda a correr atrás do seu querido...coisa já vivenciada...

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    1. Eu não me meto com esta gente, que tenho de levar com eles todos os dias e ainda me fazem uma espera!

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  8. A mulher pode é virar-se contra a vítima em vez de se virar contra o predador... melhor deixar passar. Se o espelho não funciona, provavelmente mais nada vai funcionar =P

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  9. Olha, enquanto lia este texto, só me lembrava da voz de Eduardo Rêgo a fazer a locução para uma peça da BBC. O que ainda me deu mais piada. Deu-me um ataque de riso tão grande que aqui em casa até se assustaram. Grande LOL!

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    1. Esforcei-me para dar um toque científico à coisa, sim?

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