sábado, 10 de maio de 2014

Dos vizinhos

Eu sou uma vizinha de trampa. Não sei o nome dos meus vizinhos, exceção feita ao da frente, que é conhecido da televisão, e ao nome do cão da vizinha de baixo, que ela berra a altas horas da manhã para mandar o bicho calar-se.

O que eu quero dizer é que hoje em dia já não há aquele espírito de vizinhança de antigamente. Lembro-me bem de, em faltando um qualquer ingrediente, era ir buscá-lo a uma das vizinhas, ou mesmo à porteira do prédio, que por sinal tinha uma horta e que era a fornecedora oficial de salsa e coentros. Nunca a mãezinha precisou de comprar salsa ou coentros no supermercado (na altura era mesmo minimercado o que havia), pois a porteira providenciava. E ovos também. Era todo um espírito comunitário aconchegante, de velhotes que olhavam por nós quando atravessávamos sozinhos a estrada para ir para o parque ou enquanto jogávamos ao elástico na rua, sem supervisão. Não havia cá telemóveis, se queriam saber de nós, assomavam a cabeça à janela e davam um berro, que logo havíamos de aparecer.

Hoje em dia, Senhor meu Marido já teve de sair duas vezes para ir comprar ingredientes para uma receita (sendo que a viagem tem de ser de carro, que o supermercado ainda é longe). Não se pedem ovos nem manteiga, nem um raminho de salsa que seja. Quando muito dá-se murros na parede para o parvalhão do vizinho do lado pôr a música mais baixo para não acordar as crianças, ou atira-se batatas à cabeça do cão que ladra a desoras.

Ainda no outro dia constatei que fiquei com o coração nas mãos quando o Máivelho desceu as escadas do prédio para ir para a garagem ter com o pai. Demorou mais 10 segundos do que era suposto e eu já estava a imaginar os piores cenários... Isto antigamente é que era!

5 comentários:

  1. Hoje em dia saber como é a cara de um único vizinho já é muito. Eu estou semanas que não me cruzo com ninguém nas escadas e o meu prédio nem é grande. Quanto mais saber nomes, ou a que andar pertencem. No máximo sabe-se quando se vai as reuniões de condomínio.
    Eu mesmo assim tinha a minha vizinha de baixo a quem podia recorrer se precisasse, mas mudou-se e alugou a casa a uns chineses e a estes tenho medo de ir pedir alguma coisa, nunca se sabe o que sai de lá :p

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    1. Chineses dão jeito, quando precisamos de um raminho de chop soy.

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  2. Pois a minha vizinha sabe tudo a meu respeito... sabe que sou lésbica (afinal de contas a minha mãe foi passar 15 dias a minha casa), sabe inclusivé que sou bi, porque eu "moro sozinha e às vezes vai lá um homem dormir comigo" (o meu namorado, entenda-se), também sabe que ando com um homem casado (que por sinal é o meu cunhado que mora no piso de cima e tem a chave de minha casa), sabe que eu tenho um gato e um cão (até porque o gato já lhe saltou para a varanda e a coelha foi promovida a cão - sim, eu ralho com eles e ela ouviu)... o que ela não sabe é que eu nem sei o nome dela, mas que lhe oiço a cama... à noite... vá, e a ela também... e mesmo assim temos um quarto a separar-nos...
    E pronto, é assim a vida de provincia, de alguém que veio da cidade!

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  3. Eu peço :) Quando estou em casa mesmo é tudo conhecido e tudo fica perto, na universidade já pedi por precisar mesmo e calharam-me vizinhos mesmo simpáticos, portanto, nada como experimentar!

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