quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Das mães escolares extremosas

A mãe escolar extremosa (nome científico: Chata comápotassiae) é o membro mais irritante da família das Mães. Sendo um espécime endémico das escolas dos respetivos filhos, é esperar encontrá-la no polivalente, refeitório ou onde quer que decorra uma comemoração e, preferencialmente, onde estiverem outras mães que lhe sirvam de público. Isto porque, pese embora não funcione em bando, aprecia que as suas façanhas sejam testemunhadas por membros da mesma classe, com o objetivo de se sobrevalorizar e humilhar os pares. Esta criatura, regra geral com mais de 2 filhos, não trabalha, ou, em alternativa, possui um horário que lhe permite passar mais tempo na escola do que no serviço. Está lá de manhã, a fazer esperas às professoras para as azucrinar e perturbar o funcionamento das aulas (mas provando que é uma mãe extremosa), e novamente à tarde, lá pelas 16h para ir buscar os filhos (provando, de novo, quão extremosa é). Mesmo quando os putos ainda vão ter mais aulas. Tanto melhor, assim tem tempo de azucrinar também o pessoal administrativo. Com o bónus de controlar quais as mães que têm a desfaçatez de não chegar tão cedo quanto ela. 

A mãe extremosa fica excitadona ante a possibilidade de exibir os seus dotes artísticos perante as criaturas da sua espécie: maracas com materiais reciclados, bolos para as rifas, croquetes para os lanches, é vê-la no bricolage e a cozinhar incessantemente quando é pedida a colaboração dos pais. É preciso fazer um bolo? Ela leva 12. Um enfeite com cápsulas da Nespresso para a árvore de Natal? Ela congemina 300 e ainda manda o Clooney entregar em mãos na sala de aula. Um trabalho de pesquisa sobre animais domésticos? Ela envia para a escola o cão, o gato, a arara e a tartaruga dos filhos, como sinal de empenho. E no dia dos Correios em que é suposto os pais enviarem uma carta aos filhos que lhes será entregue por um carteiro na sala de aula? Ela recruta a família inteira, para que, em conjunto, enviem telegramas cantados, cartas de várias folhas e postais. Desgraçadas das outras crianças que apenas recebem uma mísera carta, as pobres órfãs.

A mãe extremosa monopoliza as reuniões de pais, com dúvidas, intromissões, opiniões e tem um presente para os professores por ocasião do Natal, da Páscoa, do São Martinho, do final de ano, do início de ano, por altura da renovação do seguro escolar e quando chove. E sabe dos problemas de saúde de todos os membros das famílias das auxiliares a quem manda bolachas caseiras sem glúten. Na festa de Natal, é a primeira a oferecer-se para cantar uma música, participar na peça de teatro, sendo a primeira a chegar, 4 horas antes, para garantir um lugar na primeira fila, onde tirará fotos e se levantará, contra as regras, e impedindo que os outros pais vejam o que quer que seja.

A mãe extremosa, no Carnaval, leva os filhos à escola mascarada e prega cagaços de morte às outras crianças que não estão habituadas a ver abelhas macrocéfalas e com rabos gigantescos, ou Minnies velhas e mal maquilhadas. 

A mãe extremosa olha com desconfiança para as mães que deixam os filhos às 9h e os vão buscar às 18h e que não ficam de manhã à conversa com outros pais mais 1 horita ou 2 à porta da escola, e que não estão interessadas em saber todos os cocós e xixis que os filhos fizeram ou quantas colheres de sopa comeram, nem o nome das galinhas da capoeira da escola, nem se já nasceram as alfaces da horta biológica que os miúdos plantaram 3 meses, 2 dias e 16 horas antes. Ou para as que no aniversário dos próprios filhos levam apenas um bolo de anos, negligenciando sacos carregados de gomas para todos os outros.

Lamento informar que esta espécie está em vias de extinção: cada vez as mães trabalham mais, não tendo tempo a perder sassaricando pelas escolas, ou preferindo aproveitar o pouco que têm com os filhos em casa. No entanto, confesso que me dá jeito que esta malta exista: são menos bolos e croquetes que tenho de fazer.

20 comentários:

  1. Devo dizer-te que a culpa da existência (ou do brilho, vá)dessas mães extremosas é dos professores. Tenho um exemplar desses na turma do Tiago (a filha é a única desgraçada que não tem direito a almoçar na escola, porque a mãe a leva para almoçar em casa!), mas com a professora deles não tem hipóteses. Ela corta o pio a todos os pais que tentam tirar o foco da reunião do colectivo para o individual, valoriza que trabalhos de casa e projectos sejam feitos pelas próprias crianças e não pelos pais (e o quanto isto é difííícil de apreender pelas mãezinhas extremosas!), não há cá festinhas de Natal e de final do ano em que os desgraçados ensaiam coisas para os pais (as festas são lanches partilhados entre eles, turma e prof, sem cá paizinhos a tiracolo). No final do ano lectivo passado, propôs um acampamento com os miúdos. As mães iam tendo apoplexias e elas despachou-os com "podem falar com a mãe do Tiago, que é escuteiro e acampa". Uuuuiiiii! Nem imaginas! Fui olhada com horror, perante a minha descontracção, a minha falta de medo perante os horrores que crianças podem sofrer longe das suas progenitoras, no meio do mato! :D
    Mas a questão que tocas e que mais me entristece é a competição. A competição para ver uem é a melhor mãe, que depois se estende também aos miúdos, incitados por elas. É mesmo muito triste.
    Recordo com particular "ternura"uma mãe que me disse, quando o Tiago andava na creche: "a senhora tem muita coragem em só mandar um bolo de anos, feito em casa, e nada de sacos! não tem medo que o seu filho se sinta diminuído se os amigos lhe perguntarem pelos sacos?"

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    1. Olha, eu mandei bolo e disse-lhes "Sacos? Então mas não acabaram de comer bolo?! Querem gomas peçam aos vossos paizinhos." Mas nem sempre a culpa é das professoras, confesso que quando pedem voluntários eu nunca me ofereço, é natural que depois se criem estas situações. Mas longe de mim queixar-me ;)

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  2. Prima sou mesmo fã do teu Blog.

    Angelita Costa

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  3. Nem mais, ver sempre o lado positivo das coisas... Não tenho mesmo paciência para Chatascomápotassiae... mas elas andam por aí...

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    1. Andam, e há uma concentração enooorme delas em Alcochete.

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    2. Dizes isso porque ainda não vieste a Santarém!!! Anda cá se queres ver!!!

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    3. Deixa lá. Já me bastam estas ;)

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  4. Um dos teus melhores textos! Muito, muito bom!
    Conheço algumas mães assim, só que não sei escrever tão bem nem com tanto humor. :)

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    1. Muito, muito obrigada! Grande beijoca.

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  5. Tu vê lá bem no que é que ainda te podes tornar, Boneca Maria.
    Cá beijinho... e cuidadinho, sim?
    IF

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    1. Naaaaaa. É que cortava os pulsos primeiro.

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  6. A minha mãe é professora e nunca teve mães dessas lá na escola. Numa zona rural há sempre trabalho em casa e horta para tratar. No entanto, não faltam os Ferrero Rocher no Natal e as amêndoas de chocolate na Páscoa. E eu agradeço, feita lontra.

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    1. Efetivamente é tudo uma questão de prioridades!

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  7. Mãe escolar extremosa (nome científico: Chata comápotassiae) = pessoa sem vida própria.... E é isto!

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  8. Minnies velhas e mal maquilhadas é a expressão da semana. Ainda a rir.

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    1. Minnies velhas e mal maquilhadas é um pesadelo. E eu assisti!

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  9. Haja alguém que partilhe da minha humilde opinião!!
    Entristece-me aperceber-me que este comportamento é o reflexo do comportamento da sociedade!!
    Quem lucra com este tipo de "mães" são os srs Drs. psiquiatras, a quem estas recorrerão quando as suas crianças, lá por volta dos seus 35 anos (na melhor das hipóteses...sim porque até lá são bebés...e só delas) lhes comunicarem que têm uma namorada! Sim...porque só um psiquiatra para tratar/atenuar tamanho trauma de abandono!!
    E a parte que ainda gosto mais é a de estas super mães jurarem a pés juntos que amam muuuuito mais os seus filhos do que qualquer outra creatura da mesma espécie!!
    Bhaaaaa....não há paxorra!!

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    1. Sim, essa é outra característica: gostam sempre mais dos filhos do que as outras. ;)

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