segunda-feira, 11 de maio de 2015

Da precaridade do trabalho putéfio

(Sabem aquelas situações em que têm a certeza que, se tivessem 5 anos, levariam umas valentes palmadas das vossas Mães? Assim me sinto em relação a este post. Raisparta a hora em que decidi contar-lhe do blogue.)

Trabalhei um par de anos na Avenida Almirante Reis, onde, acredito que haja muitos que saibam, atacam umas senhoras de vida obscura, que carinhosamente apelidávamos de putas. Penso ser esse o termo técnico e, inclusivamente, a profissão que as ditas colocam nos respetivos CV, até porque "trabalhadora de esquina em regime de conta própria, com carreira eventualmente gerida por um manager", seria muito comprido (De 2001 até ao presente - puta). Visto cruzar-me com elas todos os dias, comecei a saber quem eram, os seus horários, a localização privilegiada, até os clientes regulares. Aliás, trabalhando na mesma rua, poderia considerá-las quase colegas. Fofinho, fofinho (*contém o refluxo gástrico*). Havia uma com quem até sentia alguma afinidade, uma vez que partilhava o meu gosto pelo animal print. Aliás, quando ela envergava as belas leggings tigresse eu pensava "Olham'esta puta a fazer-me concorrência", ou seria ela a pensar o contrário, quando eu envergava tigresse, enfim, já não sei. Só não eramos confundidas porque a senhora deveria ter uns 50 e tal anos (era a chefe delas todas, penso eu), usava óculos fundo de garrafa e tinha uma barriga que parecia que estava grávida de 5 meses a caminhar para os 9. Uma belezura, portanto. O que é certo é que tinha saída, porque eu bem a via a entrar lá com os amiguinhos pela "portinhola do pecado". Adiante.

Estava eu na farmácia um dia quando a senhora entra e explica que estava com umas comichões. "Jura?!", pensei eu, "Tu queres ver que somos mesmo almas gémeas? É que eu também sou alérgica aos ácaros". Mas não, aparentemente as comichões da, chamemos-lhe Meretriz que talvez seja mais simpático e porque já esgotei a minha quota de asneiras num post, eram mais a Norte (as minhas são nos tornozelos/calcanhares, sim?). O problema é que o tratamento implicava o local de aplicação ficar intransitável e isso era um grandessíssimo inconveniente para a senhora, que tinha de trabalhar e que não poderia dar-se ao luxo de estar 4 dias sem, vá, as suas berlaitadas.

Fiquei preocupada e durante uns tempos andei a ver se a via e efetivamente ela não deixou de se apresentar ao serviço. A precaridade no trabalho é tramada. Ou neste caso, f#dida* mesmo.


*Sei que já vou tarde, mas perdão, sim, Mãezinha? Vergastarei lombo bonecal duas vezes por dia, mais propriamente ao deitar e ao acordar, assim em homenagem à Meretriz, que era essa a frequência do tratamento que ela deveria ter feito e se recusou. Botem o olho nisto, beneficiários calões do Rendimento Social de Inserção!

4 comentários:

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    1. Dizes isso porque não viste a senhora ;)

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  2. sem dúvida que a melhor forma de abordar este assunto é a piada... é algo que me faz confusão... muita... mas só existem porque há clientela... e para os clientes acharem piada a essas meretrizes imagina o conceito de beleza que anda por aí....

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    1. Parece que existem mesmo tampas para todas as panelas.

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