domingo, 3 de maio de 2015

Ela

Ela não gosta que me refira a ela como "ela". Diz que é redutor, que deverá ser "a Mãe". Não gosta da palavra "estúpido", detesta-a, aliás, e fica piursa se a usamos na sua presença. Já à palavra "escagaçar" não resiste. Tenta não se rir, para não perder a compostura, mas é mais forte do que ela. O mesmo se passa com as minhas asneiras. Já desistiu de fazer cara feia. Desde que os netos nasceram que passou a ter mais dois filhos. "Como é que eles estão?" passou a ser a frase que mais oiço, ou, quando lhe conto alguma parvoíce deles, "Ai o meu querido". Emigrou-lhe um filho, custou-lhe horrores, mas foi a primeira a incentivá-lo e a apoiá-lo, mais não seja porque ela própria em tempos também o fez, em busca de uma vida melhor. Foi mãe muito jovem, num país em guerra, mas fez o melhor que pôde para criar uma bebé, a única sobrevivente de entre uma dezena de outros bebés que nasceram no mesmo dia no mesmo hospital com poucas condições. Hoje, é a melhor amiga da filha, da qual parece irmã, e aquela a quem a filha recorre em qualquer circunstância. Nunca falha, está sempre presente, matriarca ímpar da família. 365 dias por ano, 24 horas por dia, está esta mulher sempre cheia de energia e amor para dar, muitas vezes esquecendo-se de si própria. E é minha, caraças. Toda minha. E um bocado do meu irmão, vá.

6 comentários:

  1. A Boneca não seja egoísta!
    É sua e do seu irmão!
    (Que chique, a falar por você!)
    Um beijinho à mãe da Boneca (só à mãe da Boneca!)

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  2. Mãe Boneca ficou de lágrima no olho.
    Beijinhos.
    Mami

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