segunda-feira, 22 de junho de 2015

Sarcasmo, ironia, escárnio e outras cenas bué fixes

Porque é uma figura de estilo incompreendida, a meu ver erroneamente tida como arrogante, venho por este meio fazer a apologia do sarcasmo e, ao mesmo tempo, queixar-me por não o conseguir praticar condignamente junto dos meus filhos. 

O sarcasmo exige algum requinte, senão configurará apenas parvoíce. Posto isto, admito que as crianças não serão o melhor público-alvo, mas quando passamos muito tempo com eles e sentimos aquela necessidade premente de exercer um sarcasmozinho, não havendo mais ninguém por perto têm mesmo de servir. 

Ora, com um pirralho de 4 anos é impossível perpetrar sarcasmo de qualidade. Assim sendo, na seguinte situação:
- Onde ponho estas cuecas sujas?
- Se calhar é na minha cabeça.

... é bom que eu fuja mal acabe a frase, porque a criaturinha virá direita a mim para, obviamente, me enfiar aquilo tola abaixo.

Por outro lado, com um miúdo de 9 anos já se pode fazer umas brincadeiras supimpas, testando a sua perspicácia, em paralelo com os limites da sua paciência. Há inclusive jogos giros para adultos, tentando adivinhar quantas frases sarcásticas conseguimos proferir até pôr o puto a chorar. Hipoteticamente falando, claro, que eu nunca seria capaz de levar a cabo semelhante distração num domingo à noite quando não há kizomba no B.leza e me estou a sentir entediada.

- Posso comer quantas bolachas?
- O pacote inteiro. De caminho come todos os chocolates que houver no armário, sim?
- ... Jura?!
- Com certeza! Se precisares que tos dê à boca, chama, porque eu estou cá para te servir.
- Oh mãe, fala lá a sério!
- Estou a falar a sério, experimenta acompanhar com um copo de ginjinha que até dormes melhor.
- Estás a ser irónica, não estás?

E é nesta fase que percebo que assim também não tem grande piada, porque é bom sarcasmo desaproveitado, o miúdo esmiuça o meu comportamento e aproveita para testar o recém-obtido conhecimento das figuras de estilo da língua portuguesa. 

Assim sendo, continuarei a fazer uso destes recursos literários contra terceiros, o que me vale a fama de mau-feitio, arrogante e tal, da qual muito me orgulho, mas que envergonha Mãezinha que gostaria de ter parido um ser fofinho e amoroso. Saiu-lhe isto. Mais o palerma do meu irmão. E isto não é sarcasmo, é mesmo verdade.


Depois penso que preciso de
fisioterapia, só que não.

6 comentários:

  1. O meu também está tão bem treinadinho que já começa a ultrapassar aqui a mestre, cujo sarcasmo perfeito é quando as pessoas ficam com aquele ar de "será que ela é mesmo burra"?

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    1. Ah ah ah, adoro quando acontece, embora se percam excelentes tiradas ;)

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  2. Era ele ter aceite as sugestões... :P

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  3. Esatava a ler isto e a pensar "olha, alguém que me entende!"

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