segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Aquele cego do metro que canta rap

Talvez não seja politicamente correto troçar de um cego, mas isso é só abordar o assunto pela rama. Quem anda de metro em Lisboa conhece seguramente a personagem mais insólita que por lá se pavoneia. É um moço novo, cego, já se percebeu, que pede esmola a cantar rap. Ao mesmo tempo que arreia com uma gaita na caixa de esmolas a marcar o compasso, na trave onde as pessoas se seguram para dar uns toques mais agudos ao beat e faz a ocasional beat box com a boca, enchendo de perdigotos toda a gente num raio de 10 metros. Isto assim contado até parece fixe e tal, que anima o cinzentismo típico do metro. Sucede que a criatura tem um mau-feitio desgraçado. Bem sei que a vida lhe foi madrasta, mas quer dizer, se ele quer que as pessoas lhe dêem dinheiro, digo eu, se calhar seria boa ideia não se incompatibilizar com os potenciais investidores, just saying.

E de que forma podemos irritar sua excelência? Primeiro, não lhe saindo da frente rapidamente. Coisa bastante difícil em hora de ponta. Depois, não lhe dando esmola. Ou dando moedas pequenas. Ainda, se por acaso nos rirmos do swag do bicho a rappar e ele ouvir. Também afina se não consegue sair em primeiro lugar quando se abre a porta. Ou se encontra gente quando sai de uma carruagem e quer entrar na outra imediatamente a seguir. Em suma, o raça do gajo é chato como a potassa e acaba por não receber grande carcanhol, o que ainda exacerba mais o mau-feitio e assim sucessivamente num belíssimo efeito bola de neve que tem tudo para dar errado. 

E como se manifesta o mau-génio da criatura (que desconfio que não seja completamente cega, pelas reações que tem)? Numa péssima estratégia de self-marketing, decide praguejar e insultar os putativos beneméritos. Mas não é o ocasional insultozinho que pudéssemos eventualmente tolerar por pena ou comiseração. O gajo arreia a jiga à grande, com asneiredo cabeludo daqueles de fazer corar muita moça mais desempoeirada, que depois a última coisa que lhe apetece é sacar de uma moeda para dar ao javardo malcriadão.

Não lhe auguro portanto o enriquecimento lícito, fruto da mendicidade musical em sede de comboio subterrâneo. Enquanto o homem não entrar em modo anger management e mantiver este auto-boicote, nós, frequentadores assíduos do metro de Lisboa, vamos ter de continuar levar com o cagaçal, os insultos, o mau-feitio e tal. Um dia, apanhou-me de ovo virado e, ao me dar um encontrão, saiu-me um pequeno praguejo, que não me atrevo a reproduzir, sob pena de a imagem de criatura fofinha que vocês têm de mim se esfumar, mas em verdade vos digo: não se metam com ele. Eu tenho uma boa bagagem de vernáculo, mas oh senhores, os impropérios que saíram daquela boca suja, credo. É fugir dele a sete pés quando ouvirem a beat box e o cuspo a saltar ao fundo da carruagem.

(Oh o gajo aqui)

8 comentários:

  1. Obrigada. Ri-me tanto que fiz figura de otária na praia. x)

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    1. Bem feita! Quem está na praia merece fazer figuras tristes.

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  2. Yo! Nunca tinha visto tal figura. Que swag! (Ou não...)

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    1. Vale a pena ver, pelo menos uma vez na vida.

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  3. Sei bem quem é e realmente ele não é completamente cego (mas vê muito pouco).

    Infelizmente todo esse mau génio (já bem conhecido por todos por sinal) vem do vício, e cada vez mais pessoas o conhecem a si e à sua história, não querendo dar-lhe dinheiro.

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    1. Curso de gestão de raiva para este senhor já!

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  4. Já o ouvi dizer coisas como "merda de país, preferia ser cego na Alemanha do que ver em Portugal" e, a minha favorita, há uns anos, no Euro 2004, com o metro no Campo Grande entupido de nórdicos gigantes e o tipo lá no meio sem se poder mexer, teve um meltdown e desatou aos gritos: "FALTA DE SEXO, VOCÊS TÊM TODOS FALTA DE SEXOOOOO". :)

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    1. AH AH AH tão bom!!! Eo só o oiço mesmo a largar as car#lhadas da praxe e a mandar todo o mundo para a ... que os pariu. Um fofo.

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