segunda-feira, 7 de setembro de 2015

As liberdades deles

Jurei que nunca começaria um post por "No meu tempo é que..." Acho que é daquelas frases que nos arrefinfa logo com uma etiqueta na testa com letras garrafais "I WAS BORN IN THE SEVENTIES", ou apenas "PESSOA PODRE DE VELHA". Posto isto, deixem-me que vos diga: no meu tempo é que as crianças andavam à vontade, pá. Uma pessoa saía para a rua, atravessava a estrada e só voltava depois de a mãe enfiar a cabeça para fora da janela, dar dois gritos e ameaçar que nos pregava uma lamparina se não fossemos imediatamente para casa. Hoje em dia, pequenos demónios são transportados de carro para todo o lado, nas suas cadeirinhas de €300 (cadeiras, nós? Lembro-me de andar de pé no meio do carro, a segurar-me com um braço em cada banco da frente).

Com a idade do Máivelho comecei a ir para a escola sozinha a pé. Com estradas, semáforos e outros tantos "perigos" pelo caminho. Hoje, levo-o à escola de carro, num trajeto que dura menos do que 5 minutos. E seria impensável não o fazer.

Talvez tenha sido por esta falta de liberdade dos miúdos de hoje que ele agarrou com unhas e dentes a oportunidade que nas férias lhe demos de andar um pouco mais à solta, a ver se o puto desemburrava um bocado e deixa de ser tão choninhas. Foi assim que se viu livre, podendo andar a pé ou de bicicleta sozinho (ou com os amigos da idade dele) na Carrasqueira, aldeia perto da Comporta onde passamos férias. E quando lhe dissemos que poderia ir ao supermercado comprar o pão? Foi o grito do Ipiranga para o rapaz, a felicidade suprema (acho que não vou esquecer a cara de felicidade dele quando lhe disse "que orgulho, estás feito um homem"). 

As nossas liberdades em miúdos eram tidas como garantidas e estas criaturas super-protegidas e cujo nariz, se lhes dermos confiança, raramente sai de cima de um ecrã, nunca saberão o que é andar a jogar à apanhada na rua a altas horas da noite nas férias de verão (pelo menos não com 10 anos), nem andar num recreio da escola sem supervisão de auxiliares (e levar nas trombas à conta disso). Infelizmente, as suas pequenas conquistas passarão mais por passeios de bicla, roubar figos à figueira que não se sabe bem de quem é ou ir comprar 8 carcaças e 2 pacotes de leite. As desvantagens da era dos iPads.

13 comentários:

  1. Não imaginas como tenho pena dos miúdos de hoje. Também tenho pena de nós, porque não tínhamos net nem playstations nem telemóveis, mas isso era ficção científica, vivíamos bem sem eles. Agora, esta miudagem vê filmes e ouve os pais falarem e sabe como era. Espero, ao menos, que eles não deixem de sentir pena pelo que perdem, como o teu.

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    1. Sabes, a nossa realidade, a de que lhes falamos, acaba também por ser ficção científica para eles. O meu estava em êxtase, mas igualmente em pânico. Nunca será plenamente livre, nem estará totalmente descansado (nem nós, pais).

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    2. Giro que o que para nós era normalíssimo (eu andava à solta o dia todo, em férias e, no Porto, brincava na rua desde que não chovesse) para eles seja motivo de êxtase. Ou de pânico. Mas também te digo que se, com dez anos, me dissessem que estaria numa praia dos Algarves a conversar contigo por esta via, sairiam umas gargalhadas valentes.

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    3. Agora é que a disseste toda. Eles têm medo dos "ladrões", dos "pedófilos", dos "senhores maus". Mea culpa, que fui eu que lhe incuti esse medo, mas tem de ser, são perigos reais. Depois a outra face da moeda: fala pelo Whatsapp com os amigos que saíram da escola, fala pelo Skype com o tio emigrante que adora, sabe mais inglês do que eu sabia com a idade dele 8e que já não era pouco) á conta das aplicações do iPad. Só ainda não tem telemóvel ... deve ser o único da turma... mas continuo a resistir estoicamente!

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    4. Onde está á, leia-se à (vergastada no lombo) e onde está 8 leia-se (

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  2. Eu tinha isso, e não nasci nos anos 70! Vá, tinha uma espécie disso... No Porto morava num condomínio fechado, tudo bem que só tinhamos liberdade dentro daquelas 4 altas vedações, mas já era alguma coisinha. Éramos 5, tínhamos piscina, imenso espaço ao ar livre e no inverno a zona das arrecadações e a parte comum da garagem viravam percurso de ciclismo. É obvio que qd apareceu o primeiro iPad em minha casa, passou a ser a principal atração por uns tempos.

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    1. Sei bem: e continuo a achar triste que a altura em que os meus filhos têm mais liberdade é quando vamos visitar uns amigos a um condomínio...

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    2. Sinceramente acho que foi a 1ª vez que pensei neste assunto e não sei até que ponto é benéfico viver assim. Por exemplo:
      Aqui, moro também num condomínio fechado mas de casas, moradias, vivendas, whatever... Para ser fácil de visualizar, várias casas, cada uma com a sua muralha protetora do mundo exterior e tudo isto dentro de uma muralha gigante que protege as mais pequenas. É verdade que me sinto muito seguro sozinho em casa, até sei que há um leitor de matrículas e que o portão só abre às que têm autorização. Gosto de viver assim? Gosto! Mas não deixo de me sentir numa redoma dentro de uma redoma. Sei que moram cá 2 ou3 miúdos, se por algum motivo, os pais deixam de poder pagar isto, que é deles? Eu tenho idade para saber separar minimamente as coisas. Mas e eles? O condomínio estava a terminar de ser construido quando eu vim, há 4 anos. Se eles tiverem agora 8 ou 9, moram assim desde os 4 ou 5. Acho que seria dificil perceberem que já não poderiam andar à vontade na "rua" porque seria mesmo uma rua, com pessoas de todos os tipos e não protegida. Não haveria mais um segurança a proibir a passagem do/para o perigo.
      Conclusão, acho que é dar uma ideia totalmente errada a uma criança. But, just saying! Não percebo nada de educar e ensinar.

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    3. É como digo, é tudo muito complexo e as coisas têm de ser analisadas casuisticamente. Acho que mais vale um condomínio onde andem à vontade do que nada. E não me está a apetecer nada, para mostrar ao meu filho uma realidade diferente, "atirá-lo aos lobos".

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  3. Pois é! E se a mãe não levar o menino de carro... ajuda a autonomia dele, ou não? São assim tantos perigos!? Talvez seja a mesma protecção de mãe que eu dou ao meu. Quero que ele seja independente, mas não o deixo sair debaixo da minha asa... quer dizer, tenho de deixar. Aqui, onde moramos (segredo!?), somos "obrigados" já no infantário a estimular que façam o caminho entre infantário e escola sozinhos. E quem nos "obriga" um Senhor Polícia, que nos diz "isto custa mais para os pais do que para eles". No último ano da Primária somos "obrigados" a deixar os nossos filhos a ir numa excursão da classe por uma semana para kms de distância de casa, sem contacto telefónico, para não motivar às saudades... "obrigados" por quem? Pela directora da escola que se souber que algum miúdo não vai, então tem uma conversinha com os pais, apontando-lhes o dedo e dizendo que estão a dificultar a autoconfiança da criança, autonomia e por aí fora. Ponho "obrigados" entre aspas, porque ninguém leva multa ou outro tipo de castigo directo se não o fizer... e não é que isso ajuda: aos miúdos a crescer e aos pais a cortar o cordão umbilical... lentamente, muito lentamente... para não nos doer ;-)

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    1. Ana, tomei a liberdade de apagar o comentário duplicado. Pois é, este é um assunto complexo, que não é linear. Cada caso é um caso. A tendência é protegê-los excessivamente, é claro que vamos pagar por isso, mas os tempos são outros. Disso não tenho dúvidas. Um beijinho.

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  4. Os tempos são mesmo outros. Mesmo. Sou de uma aldeia, por isso acho que ainda se sente mais. Ainda me lembro de o meu pai deixar o carro dentro do portão, com as portas destrancadas e a chave na ignição, de dia, de noite, sempre! As portas de casa estavam sempre destrancadas e/ou de chave na porta. Eu, com 5 anos, fazia (nem sempre, mas muitas vezes) quase 3km a pé para ir para a escola. A ir, a minha mãe ainda ia comigo ate meio de caminho, mas a vir vinha muitas vezes sozinha. Era outro tempo mesmo. Naquela altura, se parava um carro e dizia "queres ir para cima? Eu sei que vais para a Portela e és filha do Pinto" eu entrava sem hesitar. Muitas vezes só me diziam que sabiam que ia para a Portela e eu entrava. Sem grande medo, sem problema. Agora é impensável uma coisa dessas. E nem falo em brincar na rua, que isso era o pão nosso de cada dia. Até às tantas, a jogar à apanhada, às escondidas, sem querer sequer almoçar e/ou jantar. Os melhores verões da minha vida foram esses. E é uma pena que agora (e vejo pela minha sobrinha) os miúdos já não saibam o que é brincar assim e passem o dia em frente a ecrãs, sempre é só ecrãs. :(

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    1. Não há como travar isto, digo eu.

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