terça-feira, 10 de novembro de 2015

RIP lagartixa

Lembrais-vos da Henriqueta? Pois bem, apesar de a lógica me dizer que é impossível a bicha estar viva e manter-se igualzinha há anos, parte de mim queria acreditar que todas as lagartixas "fofinhas" que me aparecem na garagem são ela. No fundo, ansiava pelo momento em que ela permitisse que eu lhe botasse uma coleira ao pescoço com um guizo e me deixasse passeá-la pelos montes verdejantes de S. Francisco de Alcochete, enquanto trauteávamos, juntas, a canção do Tom Sawyer. 

Mas tal não mais acontecerá. Hoje o meu coração está a sangrar. Ontem quando fui guardar o carro (e imagino se houve vizinhos a observar) estive a convencer a teimosa a sair da calha da porta da garagem onde, imagino, se esteja mais confortavelmente e seja mais aconchegante, mas onde não dá jeiteira nenhuma para quem, como eu, só quer fechar a porcaria da porta e ir para casa. Ali estive a tentar enxotar a bicha, mas sempre de longe, porque, Tom Sawyer à parte, tenho um medo nojo dela que me pelo. Eu gesticulei, eu gritei, eu bati com os pés, eu inclusivamente ameacei-a COM UMA FOLHA, para verem o estado de nervos em que eu estava, e a gaja nada. Não se mexia. Alegou usocapião da calha e não houve quem a demovesse. Tive de acionar o plano B, que consistiu em atirar-lhe uma mola da roupa e fugir. Resultou, e ao fim de quase 10 minutos pude sair da garagem, onde o réptil do demo, Henriqueta Satanás, me tinha feito refém.

Hoje de manhã, quando fui abrir a garagem, jazia a bicha esborrachada na sua sala de estar. E o que se passou, perguntam vocês, já de olhos marejados e a questionarem-se se conseguirão tirar o dia para se deslocarem à margem sul e comparecerem às exéquias fúnebres de Henriqueta Maria de Deus? Pois que se passou Senhor meu Marido. Chegou, abriu a porta, tirou o carro dele, fechou a porta e pronto. Cá preocupar-se com eventuais seres vivos que habitem nas calhas ou frestas ou o catano. Está bem, está. Eu é que tive de identificar o corpo! Eu é que tive de me despedir de piquena Lacertidae! Eu é que fugi a correr, que nem a alforreca medricas que sou e voltar a fechar a porta lá com a bicha entalada, porque tenho medo nojo de ir lá raspar aquilo. 

O que vale é que o gajo chega primeiro hoje. E eu já lhe liguei a dizer que há um cadáver na garagem à espera dele. É o mínimo, criatura insensível e assassina de répteis escamados. Muita sorte tem ele que ninguém mais sabe disto, senão arriscava-se a ir bater com os costados no Linhó e ter-me a ir levar-lhe sopa à hora da visita. E só quem nunca provou a minha sopa é que desconhece que aquilo é pior do que pena de prisão.

14 comentários:

  1. Estou dilacerada.
    Mas a tua sopa será, imagino, pena adequada.
    Sem piedade!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vou ignorar a falta de solidariedade feminina que subjaz a este comentário.

      Eliminar
  2. Estás lixada! Agora todas as lagartixas da margem sul e as mais abastadas de Lisboa vão para a tua garagem à espera do funeral da defunta ;)

    ResponderEliminar
  3. Ela ia perguntar se querias os serviços do gato, mas está visto que o problema está resolvido! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Senhor meu Marido já fez às vezes do tareco :/

      Eliminar
  4. Beijinhos à família.
    Da Henriqueta! x)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não serão entregues. Vou barricar-me em casa e só apareço na garagem em abril de 2017.

      Eliminar
  5. Que coisa! Que traumatismo! Espero que estejas de baixa médica. Lá na banda onde nasci tive um problema desse género com um réptil... Mas os locais chamavam-lhe cobra...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Com taumatismo ficou ela. Eu cá fiquei com trauma ;)

      Eliminar
  6. RIP Henriqueta. Paz à sua alma.
    Os meus sentidos pêsames (odeio esta palavra), Boneca. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A esta hora já descobriste que poderá ser um embuste da criatura.

      Eliminar
    2. Mas quando comentei ainda não sabia! :)

      Eliminar