quarta-feira, 4 de maio de 2016

Marmitando

Como já ficou patente neste texto de há uns tempos, levar na marmita é um tema que me intriga. OK, não faço mais esta piadola, pronto. É que era demasiado fácil para não aproveitar. O que eu quero dizer é que, após estudo rigorosíssimo, com base em análises in loco e observações empírico-fluviais, penso ser possível apresentar algumas conclusões científicas materializáveis na seguinte teoria: pode estabelecer-se um quadro concetual fiável assente no paralelismo entre o aspeto de um indivíduo e o seu putativo almoço em sede de marmita. 

Pronto, era só isto. Obrigada e bom dia.

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Confessem lá: agora ficaram preocupados? Com a curiosidade aguçada? Ou será que finalmente perceberam que eu tenho o dom de conseguir parecer bué séria desfiando um valente chorrilho de parvoíces? Não, boas pessoas, o dom que possuo é bem mais relevante para a sociedade: consiste em saber, apenas observando uma pessoa, aquilo que ela leva na marmita. [Oh para mim a refrear-me na piadola].

Passo a exemplificar: o moço assim a atirar para o badocha que apanha o barco das 8h30, ligeiramente despenteado, fralda da camisa sempre para fora, sapatos com ar de quem já esteve no meio de escombros de um sismo, com certeza não levará uma saladinha César com croutons e alface icebergue. Não. Posso afirmar com convicção que dentro da marmita (que não verá lavagem da boa desde outubro) o moço alberga meia costeleta (a outra meia partilha-a com o Sansão, um dobberman cego com 11 anos), uma carcaça seca e feijões vermelhos ainda com o molho da lata.

E a senhora das raízes pretas no cabelo bem louro, unhacas de gel gigantes boas para escavar cadáveres no meio dos escombros do sismo ali de cima e roupa de quem vai já de manhã guardar lugar para as matinés do B'leza? O que levará ela na marmita? [Again, atentai no poder de refreamento] Afianço que uma salada de orelha e um pão de Mafra de quilo para chafurdar na molhanga, que, caso contrário, tende a alojar-se nas unhas e isso prejudica quando ela se penteia, inclusivamente tendo ela um dia destes sem querer, por ter mexido no cabelo, desfilado um dia inteiro com meia cartilagem e um coentro na testa.

Já a moça dos fones brancos encardidos, ténis rotos e roupa assim a atirar para o, vá, badalhoco (talvez tenha andado a participar nas operações de resgate do tal sismo), essa é fácil: três bagas goji, um salteado de beldroegas, alfarroba e cenas bio variadas, em harmonia cósmica com soja, tofu, seitan e rolhas de cortiça, porque não tinha óculos quando botou aquilo no wok e pareceu-lhe tudo o mesmo.

Pessoas, eu podia ficar aqui o dia todo nisto, mas não tenho vagar. Mas que vos fique o aviso: vejam lá como se apresentam à sociedade, pois pode ser que a sociedade perceba o que vocês gostam de comer. 

12 comentários:

  1. Eu gosto muito de salada de atum, e de feijoada, e de carne de porco à alentejana... agora diga lá como é que eu me visto! (Já que é tão entendida nestas coisas, vá)

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    1. Essa é muito fácil, Anónimo: galochas (por causa do atum, que todómundo sabe que se movimenta na água), calças forradas na área do rabo (para suster os gases derivados do feijão) e um capote alentejano. Obrigada e bom dia.

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  2. Beringela recheada com atum, cogumelos, gratinada com queijo e uns moranguitos com adoçante para a sobremesa. Adivinha lá se és capaz Boneca como estou vestida? :-)

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    1. A Mrs. assim a comer coisas finas não anda de transportes públicos, isso é de certeza! ;)

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    2. :-) Verdade! Mas se os transportes públicos fossem de qualidade e com uma boa rede de acessos, se calhar andava ;-)

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    3. True. Mas já viste o que andas a perder?

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  3. Dado o teu ódio de estimação à Desigual, tenho medo, muito medo, de perguntar o que achas que eu como...

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  4. Estou vestida com calças de ganga azuis, camisola azul com riscas brancas, sabrina também azul. Então? O que trouxe eu hoje na marmita? :D

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    1. Bom, para mantermos a consistência cromática, cenas já com bolor.

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    2. Fóóóóóóóóóón!!!!!!!!
      Errado! :P

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    3. Aiopá que aborrecimento.

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