segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Soltroia vs. Costa da Caparica - um estudo rigoroso e imparcial

Pessoas, vou bater na mesma tecla. Ainda não recuperei do trauma narrado no post abaixo, logo, é natural que o assunto continue a ser esmiuçado de forma exaustiva e borderline científica, fraturante como é. E é assim que, com base em anos de pesquisa apurada, como é meu apanágio, apresento desde já em primeira mão as minhas conclusões pessoais decorrentes de uma comparação entre a praia do empreendimento Soltroia, em Tróia, e a praia da Cabana do Pescador, sita na Costa da Caparica.

1 - Quantidade de pessoas/m2. Enquanto numa primeira fase (que decorre durante o mês de julho) começamos apenas por ter uma comparação desigual (chapéus de sol na Soltroia vs. pessoas na Costa, fenómeno explicado neste post), quando as pessoas efetivamente chegam à primeira praia e montam o seu estaminé fazem-no à razão de 5 pessoas por agregado em comparação com 13 na Costa, compostos da seguinte forma: na primeira, um casal com 3 filhos, na segunda, um casal com 2 filhos, 3 sobrinhos, a avó, 2 tias, o vizinho do 2º esquerdo e um miúdo que não sabem quem é, mas que apareceu ali ao pé e começou a brincar com os miúdos e a comer as sandes. Ah, mais um cão.

2 - Nomes de batismo. Nunca ouviremos chamar gritar por uma Constança ou um Bartolomeu na Costa, assim como nunca na Soltroia se gritará chamará uma Carla ou um Flávio. Aliás, se alguém chamasse um Salvador na Costa seria o nadador e com certeza porque o Ruben Manuel se tinha engasgado com uma asa de frango.

3 - Parafernália associada a cada agregado familiar. Na Soltroia não se carrega nada, até porque isso denuncia imediatamente que vimos de longe, não possuindo casa das imediações, ergo, deveríamos ter ido para a Costa como os possidónios nojentos que somos. Aqui remeto novamente para o link já referido, que explica onde ficam os guarda-sóis e os brinquedos da criançada. Também não se leva comida, em qualquer altura se dá um saltinho a casa para se alimentar a prole. Já a malta da Costa aluga um mini-bus ou uma autocaravana e é ver de lá a saltar o grelhador, os tupperwares, as geleiras de 25 litros com Minis, vinho e 7Up para o panaché, sandes, batatas fritas, esparguete de frango, rissóis, bolas (muitas, que esta malta passa a vida a jogar à bola, vide post abaixo), raquetes, o Correio da Manhã, lençóis para fazer tendas improvisadas, o carrinho do bebé que carrega mais comida, e pranchas de body board.

4 - Entretenimento familiar. Ao passo que a tia Bé põe a fofoca em dia com as amigas, conversando nomeadamente sobre o setor imobiliário e quão mais difícil está o arrendamento de palacetes na Junqueira, enquanto o tio Bernardo e o tio Kiko entretêm 20 crianças de proveniências várias com jogos dentro e fora de água, o divertimento dos nativos da Costa passa muito por incomodar o próximo. Boladas na cabeça, raquetadas no lombo, pontapés nas canelas, água em regos alheios, enfim, a organização dos Jogos sem Fronteiras coraria de vergonha por nunca se ter lembrado deste tipo de prova.

5 - Indumentária. Na Soltroia a palavra de ordem é combinar. Pais com filhos, mães com filhas, primos com tios e assim sucessivamente, em consanguinidade cromática e de marca, de preferência portuguesa e adquirida em mercaditos. Desde que haja folhos. E muito padrão floral. E imensos fios ao pescoço dos petizes. Aliás, fora da praia reconhecemo-los pelas marcas de crucifixo no pescoço, qual criaturas que acabaram de ser exorcizadas e ainda exibem a chancela de filhas do demo. Na Costa temos de tudo, mas impera o fio dental e o biquini de cortina, sobretudo se o corpo o conseguir absorver até este deixar de se ver quase por completo. Nos homens da Costa manda a sunga, ou o calção bem comprido arregaçado até ser sunga.

6 - Hora da refeição. Como já mencionado, os primeiros piram-se para casa onde já está à sua espera uma belíssima refeição preparada pela ama dos meninos. Já na Costa, dá-se início à sinfonia de pratos, tachos, canecas, garrafas e putos esfomeados aos berros. No final, há concurso de arrotos. Reza a lenda que o record foi do Júlio Rafael do Fogueteiro, que conseguiu arrotar a Marcha do Emigrante de uma ponta à outra, enquanto dava toques na bola.

MAS, CONTEMPLAI! No meio deste imenso fosso que separa as duas realidades surge inexplicavelmente algo em comum, que prova que todos são, no fundo, irmãos, e nos traz a esperança de que ambos os povos aborígenes poderiam, quiçá, conviver em harmonia. É no momento em que vemos tanto Luisinhas como Soraias de folhos e tigresse rosa a correr desenfreadamente praia afora em busca de algo, esquecendo as barreiras que as separam, nesse fugaz instante em que as diferenças se esbatem e as classes sociais, ainda que brevemente, se juntam em uníssono para enfardar gordurosas, açucaradas e pegajosas bolas de Berlim.

21 comentários:

  1. Por essas e por outras é que não vou à praia. Simplesmente odeio! É algo que me tira do sério, nem sei explicar. Apesar de adorar ouvir o mar e de passar o verão quase todo na casa de praia, num dos poucos sítios sem avécs nem gente no geral, do Algarve.

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    1. Andas desaparecido, oh mau-feitio!

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    2. Opah, até já tinha saudades da caixa de comentários! Em minha defesa tenho a dizer que se apoderou de mim a saúde de um velho de 150 anos... Mas estou de volta, uh-uuuuh! 🎉

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    3. Esta caixa de comentários tem formação em geriatria! Bem-vindo de volta, velho!

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  2. Amei tanto como tenho a certeza que terás a alegria de receber meia dúzia de odiadores anónimos, não tarda. Ou isso ou estão todos de férias, sem dados de internet. Na Costa, com certeza.

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    1. Cá estarei para os receber de braços abertos. E com ananases, para aquela terapia que advogo incessantemente ❤️

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    2. (Caso não tenhas reparado, tens declarações de amor na caixa de comentários do post abaixo)

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  3. Eu sou uma rebelde! Já levei o almocinho para a praia de Tróia! Foi o choque da vida dos nativos.

    Excelente texto! :)

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    1. Sua possidónia! E valente também, que quando eles se enervam são pessoas para te arrearem com um folho em cheio numa vista.

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  4. Obrigada pelas gargalhadas no comboio! :D
    Adorei esta parte: "Fora da praia reconhecemo-los pelas marcas de crucifixo no pescoço, qual criaturas que acabaram de ser exorcizadas e ainda exibem a chancela de filhas do demo." No entanto, tenho de admitir que sou dessas criaturas. Mea culpa. Miúdo lá de casa não é, porque, segundo ele, "não é betinho", pelo que a sua cruz linda está só reservada para "ocasiões especiais".
    Devo dizer em minha defesa, que, por outro lado, padrões florais e matchy-matchy não são aprovados lá em casa. E levamos comida para a praia! Pim!

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    1. Pelas minhas contas és uma pseudo-beta-chunga. Em tua defesa, os crucifixos são de prata e têm de ser bem gordos (e agora tu dizias-me que o do miúdo é assim...)

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  5. Não são crucifixos, são cruzes. De prata, chatos e pontas arredondadas, sim. ;) Epá, eu não sou pseudo-beta! Não há nada que eu abomine mais. Dêem-me betos dos verdadeiros e eu até me divirto com os disparates deles. Wannabes é que eu nunca suportei. Por isso é que não ia ao Absurdo e ao Seagull, pá! :D

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    1. Olha la pá, eu ia ao Absurdo e ao Seagull. Vai-se a ver e a beta sou eu...

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    2. Eu cá não desminto ninguém... :D
      Estou a brincar, pá. A verdade é que os estereótipos têm a sua piada e há quem emcaixe neles como uma luva...
      E é verdade: nunca vi tanto biquini enfiado no rabo como na Costa. Nunquinha.

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    3. Sim! Yéc! E nos rabos que deveriam estar mais escondidos ainda por cima! E a vontade que eu tinha de as mandar desentalar aquilo??

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  6. Que bom que é voltar de férias e ter a boneca para nos fazer rir! Maravilhosos estes posts :-D O que eu gosto do típico espécime da Costa sempre com a bolinha de futebol no pé, ui, tão bom.
    Não me quis intrometer em conversa alheia mas quanto à petição para a C&C voltar, manda aí para assinar!!!! Joana N.

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    1. Só respondo porque as tuas férias já acabaram. ;) Já somos uma considerável quantidade de gajedo para a petição, Joana!

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  7. por mim vou todos os anos para Altura (minha rica Altura). aì tens um misto das 2 coisas mas com muitos m2 entre as pessoas. è so andar um bocadinho para o lado. agora fizeste me ter saudades :)

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    1. Adoro Altura, passei lá férias muitos anos, tu é que agora me fizeste ter saudades! :)

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