segunda-feira, 27 de março de 2017

Carta ao cônjuge mau e castrador

Querido Senhor meu Marido,
Venho por este meio apelar ao teu sentido cívico e bom-senso e explicar-te com toda a paciência e bonomia que as malas que cuidadosa e diariamente deposito em cima das cadeiras da cozinha não se traduzem numa situação tão grave quanto se te afigura. Malas estacionadas em cadeiras só valorizam estas últimas, subindo-lhes inclusivamente a cotação no Nasdaq de Paços de Ferreira. Tantas as cadeiras que gostariam de albergar belíssimas Vuitton, ou Gucci, ou as não menos válidas Muu, e são apenas presenteadas com porcarias de plástico das Modas Carlisabel? Felizes, é o que as nossas cadeiras são! Satisfeitas, é como elas se encontram! Para quê privá-las do toque de pele de boa qualidade? Acaso serão melhores os rabos de Máinovo e Máivelho, cujas erupções, sabe Deus, fazem corar o Vesúvio? Acaso serão mais meritórios os bufunfos peludos de Cachucho Miguel e Ginjinha Sofia?

Concedo, é um assento que estou a ocupar, mas o que é isso ante o visionamento de pequenas malunfas amorosas, de acabamentos perfeitos e cheiro a luxo? Calma lá com os insultos de que eu sou uma badalhoca desarrumada nervos e não te esqueças nunca: fui buscar-te a uma gruta, resgatei-te das roupas compradas pela tua mãe e fiz de ti esse portento de estilo em que te tornaste. Contenho-me para não tacar fogo Permito que albergues aquele blusão de penas com umas riscas brilhantes assim de ladecos de quem passou ao lado de uma carreira de polícia sinaleiro que insistes em manter em nossa habitação - quiçá num esforço de não te esqueceres das tuas origens pindéricas - e que me fere ojólhos e o coração de cada vez que abro o armário. Não que eu esteja a cobrar, eu seria incapaz de te atirar à cara que eras um pequeno jerricã de piroseira, todo tu escorrias azeite (daqueles de mistura que só usamos para cozinhar), meu querido. 

Lembra-te apenas disto: não te metas com as minhas malas. É um aviso que deverás encarar com seriedade. Não sabes do que uma mulher é capaz quando alguém se interpõe entre si e a sua marroquinaria.

Se não me abrilhanta a mobília, pá?


P. S. Voltas a botar alguma das minhas queriduchas no chão por um motivo que não seja algum dos miúdos estar às portas da morte e não respondo por mim. "Precisava de me sentar", pois sim. Que vergonha, pá, um homem desse tamanho.

6 comentários:

  1. Só para mostrar a mala. Oh Ginjinha!

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  2. HAHAHAHAHAHA (acho que vou ter de postar aqui a foto dela, para ilustrar)

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  3. ahaha passo exactamente pelo mesmo xD

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    1. Obrigada pela solidariedade contra os monstros ruins.

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  4. Mulheres e malas, tudo bem. Agora, mulheres, malas e as cadeiras da cozinha é que nunca vou entender ;)

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