segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Borregos, sexo e Transtejo, uma carta aberta a quem de direito

Caros responsáveis pelo transporte por vias navegáveis interiores do Montijo para o Cais do Sodré e de novo para o Montijo,

venho por este meio começar por vos agradecer pelas horas de contemplação fluvial ao longo destes 15 anos. Ora, fazendo nós parte de um país à beira-mar plantado, congratulo-me pelo facto de, num exemplo ímpar de respeito pela alma lusa, terem percebido que muitos dos que para Olissipo viajam pouca comunhão com o rio possuem, em claro desrespeito pelas raízes e cultura da cidade. E foi por esse amor ao Tejo e numa tentativa de nos unir a esse elemento fulcral da história da capital e do país que chamaram a vós a nobre empreitada de nos fazer, a nós utentes, encetar num bonito e prolongado exercício quase-constante de contemplação do rio. 

Achásteis vós, portanto, que o mui nobre povo do eixo Montijo/Alcochete-sem-esquecer-o-Samouco seria o representante indicado para este projeto à escala regional. É sabido que são gentes que, ao se prestarem a atravessar o bravo Tejo numa base diária, estariam com certeza dispostos a assumir tão importante desígnio de se tornarem unos com o rio, abraçá-lo em seu esplendor, amá-lo como ele merece.

Caras pessoas da Transtejo, eu ontem cheguei ao cais de embarque às 8h15 e o barco só partiu às 9h38. Mais um dia de avaria na trampa do catamarã. Mais um dia em que chego ao trabalho mais de uma hora atrasada por vossa culpa. Mais uma camada de nervos que não há afaganço de meigos gatos peludos que apazigüe. A isto eu digo "Basta!", não mais quero apreciar o rio durante horas, não mais quero ir ensalsichada (ou "ensalchichada" como a maioria das pessoas diria, para meu gáudio) com outras centenas de pessoas em desespero, não mais quero fazer parte deste vosso projeto de amor ao rio Tejo. Sabeis que mais? Antes prefiro fazer o amor físico com um borrego sujo. Preferiria, com toda a sinceridade, uma suruba com ásperos e mal lavados borregos. E de caminho até os iria lavar às águas que vocês insistem em me impingir. 

Estimo bem, portanto, que sejais todos acometidos de uma desinteria fulminante que vos faça cagar à pistola todos os dias em que houver peripécias como a de ontem, em que inclusivamente o barco não partiu apenas porque havia 6-pessoas-seis a mais, de pé. (Sendo que o Mestre tem 230 quilos, o que, pelas minhas contas, ocupa três ou quatro lugares de passageiros.) Em suma, ide-vos, todos, com o respeito que me merecem, fecundar. Se precisardes, os borregos são por minha conta.

Com os melhores cumprimentos,
Boneca Maria de Deus.

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