Comichões. Tenho-as aos hectolitros. Em todo o lado. E se há coisa que me dá bastante gozo é coçá-las, desde que se localizem num sítio decente e eu esteja numa situação em que tal não constitua um embaraço. E é aqui que a porca torce o rabo. Regra geral, as comichões dão-me nos sítios corporais mais estranhos e nos contextos mais mal-jeitosos.
Hoje, por exemplo, acometeu-se-me uma daquelas bem assanhadas na parte de baixo do pé direito. E quando? Quando estava alegremente a conduzir. Portanto, estava a precisar urgentemente de coçar o pé do acelerador. Ora, como devem imaginar, pasmem, eu conduzo calçada, por isso não me ajudaria levantar por uns segundos o pé do acelerador para o coçar. Logo, fui a esmifrar-me e a contorcer-me todo o caminho até aos barcos, volta e meia batendo com o pé no chão, mas apenas quando ia em linha reta, para não perder o embalo e repetindo a operação a cada 200 metros. Quando finalmente consegui parar, já a brotoeja tinha passado.
Isto não é de todo o pior que já me aconteceu. Nós, mulheres, fomos educadas para nos comportarmos como senhoras, e ainda que eu seja um cruzamento de camionista com peixeira do Bolhão, continuo a ouvir na minha cabeça quando me apetece coçar-me que nem uma louca até me sair pele a vozinha de minha Avó "Para lá de coçar o rabo, parece que tem pulgas, raça da miúda!" Porque sim, confesso, tenho o ocasional prurido no bufunfo e preciso de o coçar. E é aqui que, ao longo da vida, fui desenvolvendo técnicas para o fazer sem me envergonhar, sobretudo quando me dá uns ataques urgentes e necessito de proceder ao belo do scratchy-scratchy em ambiente formal/profissional/salamaleico (palavra que inventei agora para caracterizar um ambiente cheio de salamaleques. Orgulho.). Como sou uma pessoa do bem e da luz, partilho as ditas táticas:
i) Procurar uma árvore de casca grossa e rugosa e esfregar lá a bunda como os gatos, mas como se estivéssemos a proceder a uma dança sensual, assim tipo enguia molarenga, para cima e para baixo e depois lateralmente.
ii) Procurar uma mesa e, fingindo que nos vamos sentar numa ponta, jogarmo-nos em fúria, de marcha atrás contra a quina, que coçará nosso béfe, proporcionando-nos bom alívio. Cuidado com esta manobra, aconselho treino, pois corre-se o risco de esgaçar cenas.
iii) Procurar uma pessoa magra e de ossos salientes e arranjarmos forma de tropeçarmos e esbardalharmo-nos em cheio com o traseiro num cotovelo, joelho ou qualquer parte saliente da dita. Depois, ao levantarmo-nos, proceder a um esfreganço bem vigoroso como se fossemos carochas viradas ao contrário com dificuldade em dar a volta. E vamos coçando alegremente a comichão.
iv) Procurar pessoas com próteses e dar-lhes o tratamento da alínea supra.
v) Ter sempre na mala um daqueles garfos de madeira compridos para nos coçarmos e sacarmos dele sempre que precisarmos. Mas como disfarçar que estamos a sacar de um garfo para nos coçarmos? Usando o dito como batuta e dado um concerto imaginário. Volta e meia, zingas, garfo no cu de repente. E are-hops, retorna-se ao concerto e assim sucessivamente. Sugiro a Cavalgada das Valquírias do querido Wagner, que tem partes bem esgroviadas que dá para brandir o instrumento furiosamente e levá-lo até ao rabo com relativa facilidade. Encarnemos a Valquíria louca com urticária que habita em todos nós.
Espero de coração que estas estratégias vos sejam úteis no futuro e que, numa próxima reunião com o chefe, não fiquem quase roxos com uma comichão a assolar-vos um sovaco. Não que tal me tenha acontecido, claro.