Assim sendo, pelos vistos vou reciclar um maluquinho. No caso em apreço, uma chalupona que se volta a cruzar comigo e ensaia novamente um daqueles olhares penetrantes, bem incomodativos, enquanto esperamos para sair do barco. Mas de tal forma é insistente que percebo que até uma outra companheira de barco nota que ela está especada a olhar para alguém e decide ver para onde. Mas desta vez já não me apanhou desprevenida! Sabendo do que a casa gasta e, numa atitude extremamente adulta e madura, decidi coçar minha face com um belo e luzidio pirete, bem do alto do meu dedo do meio, extremamente bem manicurado e com umas cutículas impecavelmente hidratadas com óleo de cheiro a morango do Ribatejo. Ora isto afigurou-se um dilema para a chalupeta fluvial: se mostrasse indignação, desviando consequentemente o seu olhar de boga, reconheceria que estava especada a olhar para mim; se continuasse a olhar teria de enfrentar um pirete que neste momento serpenteava por minha bochecha espetacularmente maquilhada com um blushzinho de tom pêssego das Beiras, ora apontando para ela, ora abanando a caudinha qual Teijo depois de ter estado em cima do Sinupe.
Modéstia à parte, efetuo um belíssimo pirete: devido a uma condição de que padeço, intitulada "hipermobilidade articular", consigo - entre outras façanhas dignas de Cirque du Soleil - dobrar apenas as cabeças dos dedos, mantendo o resto do dedo firme e hirto que nem uma barra de ferro. Ora imaginai a categoria de bonequinho soviético que eu perpetro com este dedo meio mongo. É o número um dos piretes, o pirete máilindo da Margem Sul. É um piretezão!!! Pirezetão esse que Sôdona Maluquinha teve de gramar a dançar, chocalhar e acenar durante uns bons 48 segundos. Ilustro esta afirmação com o próprio, em todo o seu esplendor:
Se depois disto a estaferma voltar a ficar pasmada, terei de recorrer a medidas mais drásticas. Mas essa tática só poderá ser levada a cabo num dia em que tenha ingerido uma feijoada.

